terça-feira, 12 de abril de 2005

100 FOTOS DO SÉCULO – Marie-Monique Robin

O Che de Alberto Korda, a queda do muro de Berlim por Raymond Depardon, também Kim Phuc, a menina queimada pelo napalm no Vietname, fotografada por Nick Ut. Estas e muitas outras fotografias reunidas num livro, de 1999, que conta um pouco a história do século XX.

A jornalista e realizadora Marie-Monique Robin andou por todo o mundo à procura dos protagonistas das que considerou ser as 100 fotografias mais marcantes do último século. Claro está que, num trabalho deste género, entra sempre a inevitável componente subjectiva do seu autor, que convém lembrar sempre que as escolhas ou omissões possam parecer questionáveis.

Mas a riqueza deste livro não reside tanto na compilação das imagens, mas antes no trabalho de as explicar. Marie-Monique Robin falou com os fotógrafos, com os protagonistas e seus familiares, sem nunca esquecer a essencial contextualização histórica. O produto final é um notável trabalho jornalístico.

Para amantes da fotografia e da história mundial ou para simples curiosos, o livro é de inquestionável valor histórico. Antes deste formato, e na sua origem, a série televisiva Les 100 photos do siècle, transmitida pelo canal ARTE.

sexta-feira, 1 de abril de 2005

Abril

6 de Abril de 1945 e 6 de Abril de 1994. Duas datas separadas por quase cinquenta anos mas unidas pelo horror do genocídio.

Em 1945, o exército do general Eisenhower mostra ao mundo o drama dos campos da morte nazis. A libertação de Ohrdruf, um anexo do campo de Buchenwald, abre as portas da medonha "solução final". Henri Miller, um soldado americano imortalizou o momento, 6 dias depois.



Quarenta e nove anos mais tarde é morto o presidente do Ruanda e o país mergulha num período de genocídio programado. Perto de 1 milhão de tutsis são assassinados pelas milícias hutus, grande parte com golpes de catana. O conhecido fotógrafo James Nachtwey tirou a mais célebre das fotos do massacre. Só em Junho desse ano é que a comunidade internacional acordou para o massacre.

quarta-feira, 23 de março de 2005

Afinal, qual é a cor da porra do colete?

Depois da corrida aos bilhetes para os U2, da euforia em torno da liderança do Benfica e dos rumores sobre a orientação sexual do primeiro-ministro, eis a loucura do momento: a corrida ao colete reflector!
Com o novo Código da Estrada passa a ser obrigatório transportar um colete reflector no carro, e os portugueses, como se não houvesse amanhã, andam doidos na caça ao colete. O problema é que os outros portugueses, aqueles a que chamam de responsáveis políticos e seus associados, fazem questão de cumprir a velha máxima tuga do "deixa para a última" e ainda não informaram a população, ansiosa por vestir o tão desejado acessório, de qual a cor que este deve ter.
Compreende-se a demora. Perante tamanho entusiasmo em torno deste objecto de alta costura, os governantes não querem desiludir os portugueses com um coletezito de cor brega.
A julgar pelo vocabulário socialista do momento, se calhar querem-nos impressionar com um colete rosa choque. Depois do tecnológico, chega o choque dos coletes!

quarta-feira, 16 de março de 2005

Vão ser seis semanas de duras críticas à forma como os EUA têm conduzido a sua "luta contra o terrorismo". Em Genebra, 3000 representantes governamentais, ONG's e outras organizações, de um total de 53 países, estão reunidos na Comissão da ONU para os Direitos Humanos. Em cima da mesa as questões de sempre, a começar pelo questionamento da credibilidade e aceitação internacional da própria comissão. Citadas pelo jornal Público, a Human Rights Watch e a Amnistia Internacional "estimam que metade dos membros desacreditam a instituição".
Não importa se são os EUA os maiores violadores dos direitos do homem ou não (a intervenção dos russos na Tchetchénia não será certamente desvalorizada), a questão é mais a de já se saber de antemão qual a reacção americana, independentemente das resoluções de condenação votadas. À semelhança de outras decisões adoptadas pela comunidade internacional e ignoradas pela administração americana, também desta vez a resposta será certamente arrogante, egoísta e irresponsável. Os jogos de cinismo já começaram, com os homens do presidente a apontarem defeitos à constituição da comissão, da qual China e Cuba fazem parte. Activistas, que a força esteja convosco!

segunda-feira, 14 de março de 2005

"Foi só ao cabo de muitos e duros anos de matrimónio que, outrora, Erika se apresentou neste mundo. O pai logo à filha passou o testemunho e saiu de cena. Erika entrou em cena, o pai saiu. A necessidade tornou Erika na mulher rápida que é hoje."
JELINEK, Elfriede, A Pianista, Porto, Edições ASA, 2004

Não foi preciso passar da primeira página para perceber que esta tradução não soa muito bem. Ao avançar na leitura é impossivel afastar a sensação de que o esforço do tradutor em passar a ideia da autora esbarra nas limitações da lingua portuguesa, pelo menos da dele. Já vi que não é fácil traduzir do alemão, quem diria!

quinta-feira, 3 de março de 2005

E agora?

É fácil adivinhar o entusiasmo de um estudante de jornalismo, que em toda a sua vida nunca imaginou percorrer outro caminho senão aquele que o poderia levar a uma redacção, perante a possibilidade de estagiar numa rádio como a Antena 1. O estágio até poderia ter sido num qualquer outro órgão de comunicação, felizmente foi na RDP.

As expectativas eram muitas, o objectivo era só um: aprender. Aproveitar o contacto com grandes profissionais da rádio e a vivência numa redacção de referência para absorver tudo o quanto fosse possível sobre o que é fazer jornalismo radiofónico. Queria acabar o período de estágio sabendo que havia melhorado a escrita e leitura para rádio, sabendo-me mais capaz de identificar o pequeno detalhe que faz a notícia, mais familiarizado com as técnicas de reportagem, enfim… mais perto do que é ser jornalista. Três meses é um espaço temporal demasiado curto para que tudo fosse conseguido com satisfação mas, no fim, confirmei que de facto uma licenciatura em jornalismo só faz sentido se do plano curricular fizer parte um estágio num órgão de comunicação social.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2005

Agora ele é um pássaro

No sítio onde Antony nos leva não se entra de nenhuma outra forma. Lá a atmosfera não se assemelha a nada que se conheça e a singularidade da sua voz é o ar que dá vida a tudo o resto. Fala-se de amor, de dor e de perda mas não se fica por aqui. I Am a Bird Now é um trabalho intimista que funciona quase como uma afirmação da existência andrógina de Antony, um discorrer de episódios em torno da fluidez do género humano.

Começa na solidão, ou no medo de a encontrar, com o lindíssimo (como a palavra soa tão incapaz!) “Hope there´s someone” para acabar em “Bird Gurl” onde Antony ganha asas e rasga o céu em deslumbramento. Pelo meio raramente está sozinho. No início de “Spiralling” tem Devendra Banhart, em “What can I do” a voz inconfundível de Rufus Wainright, Lou Reed abre “Fistful of love” e, na mais surpreendente das participações, um dueto com Boy George chamado “You are my sister”. Um piano, algumas cordas, uma flauta e a voz, a de Antony, o coração em chamas que arde no escuro.